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Swami Jr.

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Quando recebeu o convite para participar de uma gravação da cantora cubana Omara Portuondo, em 2003, Swami Jr. nem poderia imaginar que estava prestes a iniciar uma longa e intensa viagem musical. Nos sete anos seguintes, acompanhou a mundialmente conhecida diva da trupe Buena Vista Social Club por diversos países, como diretor musical e violonista. Durante essas turnês, as horas solitárias nos quartos de hotéis o estimularam a criar composições e arranjos que surgem agora no álbum “Mundos e Fundos” – trabalho que o consolida como um dos instrumentistas mais versáteis e criativos na cena musical brasileira.

“Anos atrás, li uma frase do escritor francês Balzac que ficou em minha cabeça: ‘Uma obra de arte deve conter vários mundos’. Por volta de 2008, quando notei que já tinha várias composições nascidas em diversos lugares, durante as turnês que fiz com a Omara, pensei que elas poderiam resultar em um disco interessante”, comenta o músico, que decidiu intitulá-lo com uma expressão popular. “Mundos e fundos quer dizer ‘tudo’, ‘muito’. Acho esse título poético. E tem a ver com a ideia de a arte conter vários mundos”, explica.

Quem acompanha a carreira desse brilhante violonista, baixista, arranjador e produtor, nascido em São Paulo, sabe que mundos musicais aparentemente separados, como o do choro, o da MPB ou o do jazz, convivem há muito tempo em sua obra. Em três décadas de carreira profissional, Swami já tocou choro com a banda Xoro Roxo; forró, samba e outros ritmos dançantes brasileiros com a banda Mexe com Tudo. Acompanhou cantores e compositores de MPB, como Ná Ozzetti, Virgínia Rosa, Chico César e Zé Miguel Wisnik. Tocou jazz e releituras de clássicos da música brasileira com a cantora Luciana Souza e com os guitarristas Chico Pinheiro e Anthony Wilson.

“Viver na França durante quatro anos foi uma experiência que abriu minha cabeça”, ele conta, referindo-se ao período em que morou em Paris, no início da década de 1980, quando era integrante do Xoro Roxo. “No início, só tocávamos choro, mas, com o tempo, abrimos o repertório com Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Dominguinhos. O choro foi uma escola muito importante para mim, uma viagem profunda, mas eu não queria ficar apenas ali. Fui ouvir jazz, música africana, muitas orquestras. Ao voltar ao Brasil, fiz trabalhos que refletiram as experiências que vivi na Europa”.

Nada mais natural, portanto, que Swami abra o álbum “Mundos e Fundos” com uma composição que fez em Paris, dedicada a um de seus mestres chorões: o violonista carioca Dino Sete Cordas. “Aprendi muito viajando e tocando com ele, nos camarins. O Dino foi um músico da maior importância”. Mas não se trata de uma homenagem convencional. “Paladino” é um choro vibrante e contemporâneo, cujas baixarias (as frases que o violão de sete cordas costuma exibir nesse gênero) revelam influências jazzísticas. A formação do quinteto que Swami articulou para essa faixa também está longe de soar tradicional, graças ao berimbau e aos efeitos do percussionista Guilherme Kastrup.

Há outras homenagens no disco. A sensível “El Puro”, composta por Swami em Cuba, em 2006, é quase uma canção que dedicou a seu pai. “Ele foi o cara que me colocou na música. A primeira lembrança que eu tenho de criança é meu pai tocando violão”, relembra. Outra composição na qual o violonista mergulha fundo na emoção é a delicada “Helena”, que dedicou à filha pouco após seu nascimento, em 2003. “Você pode fazer uma turnê com uma grande cantora, um trabalho bacana, mas todos os quartos de hotéis, no fundo, são iguais. Nessas horas, há momentos solitários, em que a música brota. As composições deste disco nasceram em momentos como esses. Talvez tenham uma profundidade que vem desses momentos introspectivos”, reflete.

A funkeada “Abraço”, que Swami fez em parceria com o violonista Chico Pinheiro, em 2001, também entra no disco como uma espécie de homenagem ao parceiro e amigo, que participa da gravação.  “Praticamente, o Chico subiu pela primeira vez, num palco, comigo e o Zé Miguel Wisnik, em 1993. Ele tinha 18 anos. Hoje é um irmão pra mim, mas é meio filho também. Ele tem um talento absurdo”, comenta Swami, lembrando que já produziu dois discos dele.

Dois compositores brasileiros que Swami também admira muito estão presentes no repertório. A inusitada versão do samba “Saudade da Bahia”, de Dorival Caymmi, já começa num improviso – a melodia só surge bem depois. “É uma brincadeira”, diverte-se o violonista, que tem a seu lado, nessa faixa, o pandeirista Amoy Ribas e o violonista Marco Pereira, outro antigo parceiro, com o qual começou a tocar em 1989. “O Marco é um músico maravilhoso, um mestre”.

Swami também não economiza elogios ao se referir ao grande instrumentista e compositor e Jacob do Bandolim, do qual interpreta o choro “Vibrações” com a maior elegância e total controle do violão de sete cordas. “Acho que o Jacob é um dos maiores compositores brasileiros, mas pouco valorizado. Ele é mais reconhecido como instrumentista. Acho que esse tema está à altura dos maiores standards da música mundial. É espetacular”.


Há ainda mais uma releitura, no álbum, que certamente vai surpreender muitos ouvintes. Mostrando ser um grande intérprete, Swami extrai uma beleza inesperada da marchinha carnavalesca “Cabeleira do Zezé” (de João Roberto Kelly e Roberto Faissal), transformando-a em uma peça cheia de lirismo. “Gosto muito de brincar com melodias mais simples ou, aparentemente, banais. Já fiz arranjo até para o hino do Palmeiras”, revela.

Faixa que se destaca pela influência da música flamenca, “Tenda” foi composta pelo violonista Tuco Marcondes, que a mostrou a Swami já no estúdio. “Trabalhei muito com o Tuco e com o Mário Manga, e queria que eles também estivessem no disco. Quando ouvi essa musica, achei que ela tinha familiaridade com as minhas composições, com os contrapontos do violão, mesmo indo por outro caminho ao incorporar a influência do flamenco”, comenta.

Composta por Swami, em um quarto de hotel de Istambul, por volta de 2003, “Valsa de Areia” mimetiza, de certa forma, a aridez do clima daquela região. “É uma valsa meio desconjuntada, que vai mudando de compasso e, no final, tem uma parte meio atonal. Do ponto de vista violonístico, é uma das mais difíceis do álbum de se executar”, analisa o compositor.

Já o choro “Virou Fumaça”, composto por ele em 2009, em Barcelona, foi feito especialmente para completar o repertório do álbum. “Eu queria um choro diferente, com uma harmonia mais contemporânea e um fraseado jazzístico, mas que mantivesse a raiz desse gênero”, explica Swami, que tem nessa gravação a companhia de Milton Mori (bandolim) e Douglas Alonso (pandeiro).

“Jurupari”, que encerra o álbum, nasceu em Maceió, em janeiro deste ano. Swami a compôs logo depois de ler o romance homônimo, escrito por seu amigo e conceituado violeiro Paulo Freire, que também participa da gravação. A melodia singela confirma uma característica de quase todas as composições de Swami: são cantáveis e fluentes, como se só estivessem à espera de uma letra para assumirem de vez a forma completa de uma canção.

“Acho que tenho esse perfil que o Luiz Tatit define como cancionista. Sempre gostei de canção. Mesmo quando componho uma peça para violão solo, gosto que ela seja quase cantável”, comenta Swami, consciente do papel essencial que a melodia exerce em suas composições. Aliada ao toque elegante e virtuoso de seu violão, essa é uma qualidade que contribui ativamente para que sua música seja tão encantadora.

Carlos Calado
Abril de 2011  

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